Mudanças na dieta de ovinos podem reduzir emissões de gases do efeito estufa
4 de dezembro de 2020 - 09:40
Pesquisadores da Embrapa Caprinos e Ovinos, em Sobral, verificaram que a adoção de estratégias de nutrição para raças de ovinos adaptadas ao semiárido pode reduzir em até 57% a emissão de gases do efeito estufa. Em estudo com as raças Santa Inês e Morada Nova, foi constatado que a adoção de dieta com maior proporção de ingredientes concentrados, ricos em nutrientes solúveis (grãos, tortas, farelos, óleos vegetais), pode resultar na redução da emissão de gases como metano e dióxido de carbono.
Foram avaliadas diferentes proporções de alimentos volumosos (utilizando fenos de gramíneas comerciais) e concentrados (milho, farelo e óleo de soja, por exemplo). Como resultado, os cientistas constataram que a melhor resposta em termos de mitigação dos gases aconteceu com proporção de 20% de volumoso para 80% de concentrado. Além disso, a pesquisa mostrou que a modificação na dieta permite o abate em menor tempo e proporciona aos produtores um produto de melhor qualidade, respeitando-se logicamente todos os critérios fisiológicos e de bem estar animal.
O trabalho contou com apoio da Funcap por meio do Edital 06/2011 – Programa Áreas Estratégicas, que forneceu recursos para a implantação do Laboratório de Respirometria do Semiárido (Laresa), onde estão instaladas câmaras respirométricas, nas quais o fluxo de ar é controlado e a liberação dos gases pelos animais é medida. Além disso, a Funcap apoiou o desenvolvimento do estudo através do Programa de Bolsas de Produtividade e Estímulo à Interiorização (BPI), que proporcionou bolsas a estudantes de pós-graduação e de iniciação científica.
A pesquisa foi realizada com animais das raças ovinas Santa Inês e Morada Nova por constituírem grupos genéticos localmente adaptados ao semiárido brasileiro, além de integrarem grande parte dos rebanhos comerciais do Nordeste. De acordo com o professor Marcos Cláudio Pinheiro, médico veterinário e doutor em Ciência Animal, os dados gerados são pioneiros no Ceará, considerando a utilização de câmaras respirométricas para ovinos. Ele explica que quanto melhor for a dieta proporcionada aos animais, ou seja, que permita o melhor desempenho, menor será a emissão dos gases causadores do efeito estufa. “Trabalhar a redução das emissões desses gases é propiciar o melhor desempenho animal, por garantir maior eficiência no uso de nutrientes em consonância com o grupo genético ovino avaliado”, comenta.

Ovinos da raça Morada Nova. Foto: Embrapa Caprinos e Ovinos
De acordo com o pesquisador, a adoção, pelo produtor, da Dieta de Alto Concentrado (DAC), rica em alimentos compostos de grãos de cereais (milho, por exemplo) e farelos ricos em proteínas, como o farelo de soja, possibilita aos produtores melhores condições de venda: “Com a adoção da DAC, o produtor fica menos vulnerável às condições de mercado por obter um produto de melhor qualidade durante todo o ano. O princípio da dieta pode ser aplicado para o uso de alimentos alternativos que, nesse momento, são preponderantes em termos de escolhas para composição de dietas devido à alta dos preços dos insumos tradicionais”, explica o pesquisador.
Durante o estudo, também observou-se que esse tipo de dieta resultou em um retorno líquido de 14,7% no investimento em cordeiros da raça Santa Inês e de 6% em cordeiros da raça Morada Nova. O professor Marcos Cláudio esclarece que os cálculos foram realizados dentro de um ciclo de produção de ovinos em terminação que, para ganho precoce (produtividade mais rápida), dura de 70 a 90 dias, considerando cordeiros desmamados com 100 dias de idade. “Algumas teses de doutorado e dissertações de mestrado foram desenvolvidas na Embrapa nesse tema, junto a programas de pós-graduação da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Vale do Acaraú (UVA) e de outras instituições sediadas fora do Estado”, afirma Pinheiro.
“Neste sistema de estudos integrados com as universidades, os estudantes vêm à Embrapa realizar seus trabalhos de conclusão de curso de pós-graduação e aprendem sobre os sistemas produtivos e sobre a aplicabilidade de dietas por meio de medidas que beneficiam a produção, considerando parâmetros como renda familiar dos produtores, taxa de retorno, índice de lucratividade e taxa de rentabilidade. A partir dessas informações, é possível afirmar que as dietas desenvolvidas pela Embrapa trazem retorno do investimento”, comenta o pesquisador.
As pesquisas realizadas na instituição também abrangem dados de consumo, ganho de peso, dados de rendimento de carcaça após o abate e cortes comerciais. Com base nessas informações, são avaliados o preço dos insumos (principalmente ração), os custos com medicamentos, e a depreciação de instalações, em associação com o preço de venda dos animais (peso vivo).
O professor Marcos destaca que os benefícios obtidos com o estudo também são aplicáveis a pequenos produtores. “No Ceará, a Embrapa já desenvolve, no sertão dos Inhamuns, o trabalho de utilização de dietas aplicáveis a rebanhos de pequenos ruminantes que tragam eficiência alimentar e sejam viáveis economicamente”, afirma. Ele ressalta que a instituição tem como papel fundamental contribuir com políticas públicas que proporcionem acesso às tecnologias desenvolvidas.
Estrutura de pesquisa criada com apoio da Funcap

A estrutura do Laresa foi montada com apoio da Funcap. Foto: Embrapa Caprinos e Ovinos.
As instalações do Laboratório de Respirometria do Semiárido (LARESA), montado com apoio do Programa Áreas Estratégicas, da Funcap, permitem a geração de dados de produção de gases do efeito estufa para inventários nacionais e internacionais, tendo como cenário o semiárido, seus alimentos e grupos genéticos animais localmente adaptados.
Segundo o professor Marcos Rogério, com a estrutura do laboratório é possível trabalhar questões de exigências de energia líquida (sistema que considera a perda de energia na forma de calor durante os processos de digestão, absorção, metabolismo e fermentação do alimento consumido) em diferentes grupos genéticos de ovinos e caprinos. Entre estes fatores estão parâmetros bioclimatológicos como temperatura, umidade relativa do ar e ventos.
O laboratório conta, ainda, com baias e gaiolas de metabolismo que possibilitam a realização de ensaios de consumo e de digestibilidade de nutrientes e avaliação de parâmetros metabólicos de pequenos ruminantes pela adoção de diferentes dietas e rações que podem vir a ser comercializadas ou usadas por produtores rurais do semiárido cearense. “O apoio da Funcap foi fundamental para a montagem dessa estrutura ímpar e para a realização de pesquisas desse escopo no semiárido cearense”, finaliza o pesquisador.