Especial Mulher & Ciência – Entrevista com a pesquisadora Vívian Matias dos Santos

31 de março de 2016 - 19:53

Em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, a Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap) publicou um material especial entre os dias 7 e 11 de março sobre a participação das mulheres na Ciência.

Além de uma série de entrevistas com pesquisadores atuantes em instituições de ensino em pesquisa no Ceará, foram publicadas também matérias abordando referências femininas na história da ciência e também iniciativas para valorizar e incentivar a participação das mulheres na ciência.

No entanto, uma das entrevistas acabou não sendo publicada durante o período. Conversamos também com a pesquisadora Vívian Matias dos Santos e, por conta de alguns imprevistos, somente hoje (31) estamos publicando a entrevista.

Vívian é professora adjunta da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), com graduação em Serviço Social e mestrado em Políticas Públicas e Sociedade pela Universidade Estadual do Ceará (Uece). Bolsista da Funcap durante a graduação e o mestrado, a professora é a coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Gêneros, Ciências e Culturas (HYPATIA) e vice-coordenadora do curso de graduação em Serviço Social da UFPE.

Com experiência em pesquisa científica na área da Sociologia, com ênfase nos estudos de Gênero e Feministas, atuando principalmente nos temas ciência e tecnologia, epistemologias feministas, violência e direitos humanos, a pesquisadora Vívian Matias dos Santos encerra a série de entrevistas produzidas para o Especial Mulher & Ciência.

Divulgada em 2015, uma pesquisa da ONU (Unesco Science Report – Towards 2030) realizada em 14 países (não há dados do Brasil), mostrou que a probabilidade de estudantes do sexo feminino obterem um diploma de bacharel, mestrado ou doutorado em ciências ou em áreas correlacionadas é menos da metade do que se comparado aos homens. Qual poderia ser uma dessas razões? Algumas áreas ainda são tidas como “mais masculinas”?

As razões são históricas, culturais. Inerentes aos alicerces sexistas, eurocêntricos e ocidentalizantes das ciências no Ocidente.

Desde Aristóteles, na ciência dita “antiga” observamos um discurso científico dicotômico e hierarquizante que pensa a humanidade como sendo dividida entre dois sexos. Para este pensador, as mulheres eram inferiores aos homens quanto à força corporal e capacidade cerebral. Por meio destes argumentos biologizantes Aristóteles legitimava que as mulheres deveriam se ocupar da reprodução da vida (gerar crianças, cuidar destas e de seus maridos), enquanto que os homens deveriam se ocupar da ciência, da política. Esta discussão, inclusive é ponto de importante reflexão no livro “A condição Humana”, de Hannah Arendt, onde a mesma discute sobre como a esfera pública, na antiguidade greco-romana, era o espaço da filosofia, política, da persuasão pela palavra, um lugar construído como masculino, para homens e por homens.

O fato é que este discurso não foi deixado na Antiguidade, mas reiterado nas construções científicas do Ocidente. Nestes termos, somos herdeirxs de uma ciência ocidentalizante e eurocêntrica construída por homens e para homens brancos, ocidentais, supostamente heterossexuais e pertencentes às classes mais abastadas.

Para pensarmos sobre esta questão temos que partir do pressuposto de que todo e qualquer conhecimento científico deve ser situado nas condições históricas, sociais, culturais e políticas das sociedades em que se construíram. Todos os conhecimentos científicos e, portanto, as ciências em seus diferentes campos de reflexões (ou áreas do conhecimento, convencionadas como herança da modernidade ocidental que marcou a política científica pelo estabelecimento de fronteiras entre as distintas disciplinas) são construções humanas, sociais e, portanto, refletem as sociedades onde se constroem.

Assim, as discriminações no campo científico são reflexos das relações sócio-culturais mais amplas. Uma sociedade desigual constrói uma ciência e modos de produção de conhecimento científicos desiguais. De fato, historicamente construíram-se nas ciências “nichos” onde as mulheres ainda são quase ausentes estatisticamente e pouco expressivas. Como herança cultural das sociedades hegemônicas no processo civilizador ocidental, ainda hoje temos uma segregação de gênero territorial e hierárquica nas ciências. Áreas construídas como aperfeiçoamento técnico-científico dos papeis historicamente atribuídos às mulheres (cuidado, assistência, etc.) tais como o Serviço Social, Enfermagem, Pedagogia, etc. têm se construído como áreas de predominância feminina. Já as ditas “exatas” como a matemática, física e as engenharias e os campos tecnológicos historicamente foram construídos como espaços masculinos, já que ainda se faz presente o discurso discriminatório que afirma os homens como mais racionais.

Somos herdeirxs e continuamos reproduzindo, mesmo que por meio de mecanismos discriminatórios sutis, o discurso que afirma os homens como mais racionais (mais inteligentes e mais aptos para as ciências) e as mulheres como mais sensíveis e intuitivas (menos inteligentes, movidas por paixões menores e menos aptas para as ciências).

Em minhas pesquisas tenho percebido que as mulheres têm mais dificuldades em construir carreiras científicas em áreas de predominância masculina. Por outro lado, tenho observado que homens parecem não ter dificuldades em áreas de predominância feminina. Entrevistando cientistas de áreas construídas como femininas pude observar que os homens não se percebem discriminados por serem homens.

A senhora analisou os auxílios concedidos pela Funcap, mostrando que, embora o número de auxílios concedidos fosse igual em alguns anos, o valor dos projetos aprovados pelos pesquisadores era maior do que o das pesquisadoras. Mesmo quando entra em jogo a análise pelo mérito científico, as pesquisadoras não recebem o mesmo julgamento dado aos pesquisadores?

Por meio das pesquisas que já realizei e por meio da crítica feminista à ciência, podemos perceber que a noção de “mérito científico” é bastante questionável se considerada isoladamente e descontextualizadamente. Esta noção tem contribuído para a reprodução de uma política científica sexista, racista, homo-lesbo-transfóbica e classista.

Temos que refletir: As mulheres são super responsabilizadas em suas famílias, em seus lares. Quando são casadas ainda tendem a ser as responsáveis pelas tarefas domésticas e pelos cuidados com os filhos. Como estas mulheres poderão ser tão produtivas quantos os homens que não têm esta sobrecarga de trabalho fora da ciência?

E quando estas mulheres são negras, lésbicas, transgênero é ainda mais complicado. Muitas são pobres – no caso das mulheres negras – muitas são expulsas da casa dos pais muito jovens – no caso das lésbicas e trans – e se vêem obrigadas a se inserirem no mercado de trabalho mais cedo ou em trabalhos insalubres e desumanizadores. Será que estas mulheres estão em condições de igualdade para seguirem na carreira científica? Será que num contexto de extrema competitividade, tal como se configura a academia, estas mulheres têm as mesmas chances de estudar e ingressar no mestrado, no doutorado e se tornarem pesquisadoras?

E, quando as mulheres conseguem construir uma carreira de pesquisadora, de cientista, muitas pesquisas têm comprovado que elas têm menos tempo para as ciências. E, quando são mães, percebo que o tempo dedicado à ciência é sentido, muitas vezes, como o tempo roubado da família, do marido, dos filhos. Este é um sentimento, uma percepção que raramente são relatadas por homens pesquisadores.

A feminista Londa Schiebinger estava certa quando afirmou que “as instituições científicas – universidades, academias e indústrias – foram estruturadas sobre a suposição de que os cientistas seriam homens com esposas em casa para cuidar deles e de suas famílias” (SCHIENBINGER, 2001, p.69) [SCHIENBINGER, Londa. O feminismo mudou a ciência? Tradução de Raul Fiker. Bauru: EDUSC, 2001. (Coleção Mulher)].

Certa vez, entrevistando uma mulher cientista da Física, esta afirmou que os projetos das mulheres tendem a movimentar menores recursos, ou seja, tendem a ser mais baratos por que elas têm menos tempo para as ciências e solicitam menores recursos para projetos menores. Segundo ela, isso não ocorre com os homens, pois estes têm “todo o tempo do mundo” para a pesquisa.

O que isso significa? Significa pensar que as mulheres aparentemente não são discriminadas pelas comissões e câmaras que avaliam os projetos de pesquisa nas agências de fomento, já que o critério é o mérito. Todavia, a discriminação ocorre na sociedade de forma mais ampla e isso é refletido na política científica e tecnológica. O discurso meritocrático (que não está somente nas ciências) não é capaz de dar conta das desigualdades de gênero, raça, classe, geração, etc.

Temos que repensar os critérios que permeiam os processos avaliativos, mas, sobretudo, temos que questionar as ciências e as suas práticas em seus alicerces históricos, políticos, econômicos. Temos uma cultura científica permeada por uma lógica produtivista excludente. As ciências têm sido estratégicas para o mercado e para as relações capitalistas e, assim, os saberes científicos nem sempre têm como prioridade contribuir para um mundo sem discriminações, lamentavelmente.

Nacionalmente falando, nós temos o prêmio Para mulheres na ciência; a série Pioneiras da Ciências; e nós tivemos a chamada pública Meninas e Jovens Fazendo Ciências Exatas, Engenharias e Computação. Internacionalmente, nós tivemos em 2016 o Primeiro Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência (criado pela ONU). Essas iniciativas mostram que estamos no caminho certo? Precisamos dar visibilidade à participação das mulheres na ciência brasileira e também incentivar novas participações?

Ações políticas desta natureza revelam que as desigualdades de gênero nas ciências foram reconhecidas e encontram espaço nas agendas políticas, encontram um grau de institucionalidade diferenciado daquele que percebíamos nas políticas públicas anteriores aos anos 2000.

Acredito que sim. Estamos trilhando um caminho possível e satisfatório para as condições objetivas em que vivemos. Entretanto, muito há para se pensar, para se construir.

Os avanços que tivemos neste âmbito somente foram possíveis pelas pressões dos movimentos feministas que são plurais e diversos. Neste sentido, penso que os próximos passos, os próximos avanços, devem seguir este caminho. Temos ainda muito o que reivindicar, muito o que dialogar com os saberes produzidos pelos feminismos.

A luta deve continuar.