Especial Mulher & Ciência: Entrevista com a pesquisadora Cláudia Linhares Sales
11 de março de 2016 - 11:53
Com mestrado em Engenharia de Sistemas e Computação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutorado em Informatique – Recherche Operationnelle pela Universidade Joseph Fourier, na França, a pesquisadora Claudia Linhares Sales, professora associada da Universidade Federal do Ceará (UFC), é a nossa entrevistada de hoje (11) para o Especial Mulher & Ciência.
Entre 2010 e 2011 e 2012 e 2014, Claudia Linhares ocupou o cargo de diretora científica da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap). Atualmente, a professora é secretária Regional Adjunta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
Confira a entrevista.
1 – Professora, o que a levou para sua área de pesquisa? Quais foram as influências? Existe alguma referência feminina atual?
A escolha da minha área de pesquisa foi afinidade pessoal mesmo. Senti que estaria sempre motivada e, portanto, seria sempre prazeroso trabalhar na área de algoritmos e teoria dos grafos, que é a minha área de pesquisa, dentro da ciência da computação. Na minha área há pesquisadoras brilhantes em atividade, tais como Celina de Figueiredo, que tornou-se a primeira professora titular da COPPE, e Sulamita Klein, ambas da UFRJ, além da Yoshiko Wakabayashi, da USP. São exemplos inspiradores para todas nós.
2 – Quais pesquisas a senhora está desenvolvendo agora?
A maior parte dos meus trabalhos de pesquisa são no tema de coloração de grafos. Trata-se de estudar as propriedades de conjuntos e relações entre conjuntos para que se possa particioná-los, de acordo com as restrições impostas pelos problemas que eles modelam. Para trazer mais para perto do mundo real, os problemas de coloração modelam muitos problemas práticos na área de telecomunicações, entre eles, por exemplo, o de atribuição de freqüências em redes de telefonia. Como esses problemas envolvem um grande volume de dados, a resolução computacional deles, em busca das melhores soluções, é muito difícil. Então, o que fazemos é pesquisar algoritmos eficientes para resolver parte desses problemas.
3 – Como se deu a construção da sua carreira científica em um meio (academia) que não está imune ao machismo da sociedade?
De forma geral, posso me considerar uma mulher de sorte. Não pude perceber ter tido qualquer prejuízo pelo comportamento, no que diz respeito ao machismo, de meus professores e orientadores, desde a graduação até o doutorado. Não garanto que eventualmente alguma colega não tenha sido assediada ou não tenha sofrido algum prejuízo por questão de gênero. É possível que esse tipo de predador escolha bem os alvos. Como sempre fui muito ativa politicamente nas representações estudantis, talvez não fosse um bom alvo. Ao contrário, guardo boas lembranças de meus professores e orientadores.
Depois, já como professora na universidade, ouve-se muito mais do que se gostaria, ou do que era esperado em um ambiente acadêmico, não em relação a você propriamente ou a alguém específico, comentários ou piadas machistas e sexistas. Infelizmente, qualquer crítica que se faz a esse tipo de comentário ou piada, é ridicularizada como sendo a “ditadura do politicamente correto”, afinal trata-se apenas de uma “piada”. No que me diz respeito, não faço concessões ao machismo. Se na esfera administrativa não se pode evitar a convivência com esse tipo de pessoa, posso fazê-lo nas minhas parcerias acadêmicas, e estas, só faço com pessoas normais.
4 – A senhora vivenciou um presenciou algum caso de machismo durante sua carreira?
A comunidade universitária, no caso da UFC, de aproximadamente 50.000 pessoas, é um reflexo da sociedade. Então, encontra-se de tudo e na mesma proporção. Porém, a carreira acadêmica é muito bem estruturada e desconheço casos de prejuízos de professoras, nas suas carreiras na UFC, em virtude do machismo. É fato, porém, que as representações femininas nos comitês de julgamentos das agências financiadores, nos cargos decisórios das academias e sociedades científicas, nas pró-reitorias e reitorias e na direção de órgãos colegiados é inferior à proporção de mulheres na academia, sem outra explicação, a não ser a estrutura patriarcal da sociedade, visto que encontra-se, em todas essas esferas, mulheres brilhantes, combativas, com competência e talento para ocupar quaisquer desses cargos. O fato da UFC nunca ter tido uma reitora e ter tido sempre pouquíssimas candidatas à reitoria (lembro apenas de uma desde 1998, ano em que ingressei na UFC) é sintomático. Existe inegavelmente, ainda que velada, uma estrutura patriarcal.
5 – Qual mensagem a senhora gostaria de deixar para as meninas e jovens que possuem interesse ou já iniciaram uma carreira no mundo da Ciência?
Eu diria a elas que a carreira acadêmica é, a meu ver, uma excelente escolha profissional. A pesquisa é desafiadora e o ensino é motivador, pois trabalhar com jovens e vê-los crescer e amadurecer profissionalmente traz muita satisfação. No que diz respeito ao machismo, ignorem e avancem, sempre. Não se intimidem, nem se retenham. Os seus sucessos profissionais serão o antídoto. Mas, não esqueçam que nós, mulheres, na busca de uma sociedade que respeite igualmente todos os gêneros, temos um grande papel fora da academia, que é a educação e a formação que damos para os nossos filhos e filhas. É de nós que eles tem que ouvir e receber o exemplo de que o machismo e a violência contra as mulheres não é piada, não é engraçado, e é tragicamente real. Temos que refletir com eles sobre as diversas facetas e disfarces do machismo e da violência, de forma a protegê-los de sofrerem ou praticarem esse tipo de comportamento.