Primeiros clones ovinos vivos no Brasil foram produzidos na Uece
16 de maio de 2014 - 14:29
Uma pesquisa apoiada pela Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap) permitiu, no último fim de semana, o nascimento de dois clones ovinos da raça Santa Inês na Fazenda Haras Chicote, localizada em Aquiraz. Os clones são resultantes de um projeto de cooperação científica internacional entre pesquisadores da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e da McGil University, em Montreal, no Canadá. Na Uece, o projeto é coordenado pela professora Ana Paula Ribeiro Rodrigues e pelo professor José Ricardo de Figueiredo, enquanto na Universidade canadense a coordenação é dos professores Vilceu Bordignon e Hernan Baldassarre.
A colaboração científica entre os grupos de pesquisa cearense e canadense já existe desde 2008, quando a professora Ana Paula realizou pós-doutorado no Canadá, com apoio do Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento (CNPq). No entanto, em 2012, com o apoio financeiro da Funcap, foi possível consolidar a parceria, cujo projeto viabiliza missões de trabalho dos pesquisadores no Brasil e Canadá. O projeto “Imunolocalização de proteínas envolvidas nos danos e reparo do DNA de folículos pré-antrais caprinos após criopreservação e cultivo in vitro” foi aprovado no Edital 03/2011-Programa de Cooperação Internacional, da Funcap em parceria com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
Dessa forma, em dezembro de 2013, os professores Bordignon e Baldassarre, durante visita à Uece, trabalharam intensamente com a equipe cearense, o que resultou no nascimento dos clones. Segundo a professora Ana Paula, dentre outros objetivos, o projeto visa uma análise da capacidade de desenvolvimento do oócito (óvulo) submetidos às técnicas de reprodução assistida como a transferência nuclear (TN), bem como a capacidade de reprogramação celular na raça Santa Inês, originada e explorada nas condições do Nordeste brasileiro.
A grande diferença entre esse resultado e o obtido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) em 2007, é que os clones produzidos no Ceará (Uece) estão vivos e com bastante vitalidade, ao contrário do clone também da espécie ovina produzido naquela universidade, que sobreviveu apenas por poucos minutos após o nascimento.
Os clones produzidos na Uece foram originados a partir de células da pele de uma ovelha adulta de alto valor genético, das quais, por meio da técnica de TN, foram obtidos embriões. Esses foram transferidos para ovelhas receptoras ou barrigas de aluguel. Após 149 e 150 dias de gestação, duas ovelhas pariram as duas borregas clones, sendo uma de parto natural e outra de cesariana, cuja cirurgia foi realizada pelos médicos veterinários Michael Medeiros e Cléssio Moreira. Hoje as borregas estão com 6 e 5 dias de vida, e com excelente estado de saúde.
Embora a técnica de TN tenha sido empregada pelos pesquisadores do Canadá, o trabalho foi plenamente realizado na Uece, na Unidade de Pesquisa Transferência Biotecnológica e Inovação (UPTBI) e no Laboratório de Manipulação de Oócitos e Folículos Ovarianos Pré-antrais (Lamofopa), e Haras Chicote. Os bolsistas pós-docs do Lamofopa, como Deborah Magalhães (PDJ/CNPq), Rodrigo Tenório (PNPD/CAPES), Valdevane Araújo (PDJ/CNPq), Luis Oliveira (PNPD/CAPES), Giovanna Rodrigues (PNPD/CAPES) e Jamily Bruno (PDJ/CNPq) tiveram participação efetiva.
A professora Ana Paula enfatiza que o projeto foi realizado com êxito total, especificamente no que se refere à capacidade de reprogramação celular. Em agosto do ano passado, a professora esteve na McGill University acompanhando os trabalhos dos professores Bordignon e Baldassarre, referentes ao estabelecimento das linhagens celulares (células que originam o clone). Em outubro de 2013, a equipe na Uece iniciou a obtenção de biopsias de pele e cultivo das células da ovelha clonada e, em dezembro do mesmo ano, o trabalho de TN propriamente dito foi realizado pelos pesquisadores da universidade canadense aqui no Ceará.
O resultado tem grande valor do ponto de vista científico e acadêmico por conta da participação efetiva de professores, pesquisadores e pós-graduandos dos programas de pós-graduação em Ciências Veterinárias (PPGCV) e em Biotecnologia (PPGB-Renorbio). A professora Ana Paula destaca ainda o grande impacto que essa pesquisa trouxe para o setor produtivo, que foi a transferência de tecnologia até os produtores. Hoje, os criadores Amilcar Silveira e Moacir Cavalcanti, do Haras Chicote, possuem em seus rebanhos duas cópias geneticamente idênticas de uma fêmea adulta de alto valor genético e econômico. Isso representa a disponibilidade de mais uma forma de preservação e perpetuação do patrimônio genético, além de fazer com que tecnologia avançada chegue até os produtores.
Bolsista da Funcap durante mestrado e doutorado, Ana Paula afirma que esse trabalho não teria sido possível sem o apoio financeiro dos órgãos de fomento, como Funcap, CNPq e Capes, bem como o apoio da Favet, dos programas de pós-graduação; PPGCV; PPGB-Renorbio; do Lamofopa; dos produtores, que cederam seus animais e propriedade para a execução do experimento; dos professores Marcelo Bertolini e Luciana Bertolini da Universidade de Fortaleza (Unifor), que contribuíram com apoio logístico. Além deles, agradecimentos para a equipe de pós-doctor do Lamofopa, que auxiliaram os pesquisadores do Canadá durante período na Uece. A pesquisadora destaca ainda a participação do professor José Ricardo de Figueiredo, do Lamofopa, orientador da pesquisadora durante mestrado e doutorado e agora colega de trabalho.
Com informações da Assessoria de Comunicação da Uece