Cientistas usam modelos em lagos para estudar mudanças nos oceanos
Do site da The Economist
Quando John Cabot, navegador italiano conhecido por ser o primeiro a chegar à América do Norte, lançou âncora na costa de Newfoundland, no nordeste do Canadá, em 1497, sua tripulação relatou que eles precisavam apenas mergulhar um balde na água para pescar bacalhau. Por séculos, o peixe da região de Grand Banks, descoberta por ele, continuou abundante. E mesmo a introdução das técnicas modernas de pescaria, a partir da década de 1950, parecia não estar causando muitos danos.
Em 1992, no entanto, a população de bacalhaus da região de Grand Banks diminuiu drasticamente, deixando 40 mil pessoas desempregadas. Ecologistas marinhos alertaram durante muito tempo para a ameaça da espécie causada pela pesca excessiva, mas ninguém se preocupou – em parte porque previsões anteriores da destruição se mostraram incorretas. Agora, os sucessores desses ecologistas estão tentando desenvolver maneiras de alertar para os casos de colapsos iminentes.
Fazer isso no oceano é complicado – o mar é vasto e é preciso lutar contra muitas variáveis. O que é necessário, então, é um modelo para ajudar no estudo do problema. O professor Steven Carpenter e seus colegas da Universidade de Wisconsin, em Madison, encontraram um: os lagos. . Lagos são bons lugares para estudar mudanças ecológicas porque são pequenos, como os ecossistemas que possuem, e têm limites claros. Desde o ano passado, a equipe do Dr. Carpenter tem monitorado seis lagos em Missouri para tentar entender como os ecossistemas mudam de repente de um estado para outro.
Eles descobriram, como previam, que esses lagos apresentam mudanças repentinas – geralmente rápidas – de um estado de água límpida para um repleto de algas fluorescentes em resposta à adição de fertilizantes nos lagos. Quando eles estão claros, eles tendem a estar repletos de grandes peixes e pequenas criaturas que os tornam limpos. Mas, quando a água é turva, tanto os peixes como as pequenas criaturas desaparecem. O que poderia sinalizar a iminência de tamanha mudança? Até agora, a equipe do Dr. Carpenter acha que a procura por um aumento de várias características da população de peixes e de plâncton de um lago (“variabilidade”, “assimetrias” e “autocorrelação”, em termos técnicos), pode prever se haverá ou não proliferação de algas fluorescentes.
Por si só, isso é interessante. Infelizmente, não é muito utilizável para gestores ambientais com pequenos orçamentos, porque seria muito caro monitorar continuamente ecossistemas inteiros. O trabalho de Marten Scheffer, da Universidade de Wageningen, na Holanda, sugere que esses gestores podem não precisar fazer isso. O laboratório do Dr Scheffer está repleto de garrafas contendo amostras de água de lagos cheios de plâncton. Aplicar técnicas estatísticas apropriadas a essas amostras parece ser um trabalho razoável para indicar a estabilidade do lago de onde elas vieram.
O que é particularmente intrigante é a forma como os lagos mudam. Eles apresentam o que é conhecido como histerese (tendência de um material ou sistema de conservar suas propriedades na ausência de um estímulo que as gerou). Isso significa que você pode alimentá-los por gotejamento com fertilizantes sem causar muitas mudanças visíveis até que, de repente, todo o sistema entra em colapso e um novo “ambiente estável”, dominado por algas de lagos, emerge. Para voltar ao estado inicial, não basta apenas forçar a química do lago a retornar ao estágio anterior à mudança. É necessário um longo caminho após esse ponto para trazer de volta o ecossistema da água limpa.
Isso ajuda a explicar porque, apesar de 15 anos de esforços de conservação, o bacalhau da região de Grand Banks ainda não conseguiu se recuperar. Apesar de ter sido o descaso, em vez da química, que causou a mudança, agora a região está em um novo “ambiente estável” e não sairá dele facilmente.



